sábado , julho 20 2019
Casa / Crítica / Ser favela é ir à luta!
Ana Luisa pronta par ir à luta. foto: acervo pessoal.

Ser favela é ir à luta!

por Ana Luísa*

Depois de longo silêncio nesta coluna, talvez o necessário para que pudesse regurgitar os recentes acontecimentos políticos, volto a por a cara no sol a fim de compartilhar com vocês, meus fiéis dois ou três seguidores, minhas percepções a respeito dos novos – ou seriam clássicos? – acontecimentos sociais e políticos.

O Mito ganhou as eleições. O furo da reportagem não é a notícia em si (haha, pegadinha da malandra!), mas o fato de que sim, eu concordo que Bolsonaro seja um mito. Explico: o projeto de governo vencedor das urnas é sempre determinante para o lucro de muitos poderosos, certo? De forma que esses poderosos não permitiriam que vencesse o candidato que colocaria em risco as reformas econômicas que garantem o acúmulo de riquezas para uma 20ª ou 22ª geração com a vida abastada, certo? O grande lance é que o candidato que mais colocaria em cheque essas reformas não era Haddad, com sua proposta de governo altamente conciliatória nas entrelinhas. Quem colocaria em cheque essas reformas, ao menos na leitura feita pelo empresariado durante a campanha, era muito mais o Bolsonaro. Porque ele era ideologicamente contra as reformas? Não. Por conta da sua incompetência. Já é fato sabido que, em sete mandatos, Bolsonaro não foi capaz de aprovar mais que dois Projetos de Lei. Possivelmente seja o recorde de incompetência da Casa – e olha que, como deve imaginar o caro leitor, a disputa é acirradíssima. Em suma: habilidade política é altamente recomendável na Presidência. Dilmãe que o diga. E o mercado financeiro certamente tremeu nas bases quando viu que tirou Dilma por sua falta de habilidade política para, em menos de dois anos, as urnas colocarem  na presidência alguém ainda pior.

Jair Messias não ganhou por conta do amplo apoio dos atores que normalmente determinam uma eleição no Brasil: mídia corporativa, grandes partidos e mercado financeiro. Ele foi vencedor por conta do apoio popular (e da chatice da esquerda). Historicamente, a outra eleição presidencial que encenou uma conjuntura assim descrita foi… o Lula. Jair Messias (assim como Lula) é um mito mesmo, porque, na política, assim como no Comando Vermelho, é mais ou menos assim: “Não é qualquer um que chega e ganha a moral de cria”. E Bolsonaro quebrou totalmente essa regra: talvez tão difícil quanto erguer um operário à condição de presidente da república seja eleger como presidente alguém com um cérebro brilhante feito uma tábua. Então parabéns, povo brasileiro! Foi pra isso mesmo que lutamos pelo sistema proporcional. Para que o sistema político seja permeável ao que a teoria política chama de outsiders. Só não imaginávamos que dava pra ser outsider com 28 anos de Congresso Nacional – outro feito mítico do mito. A-HA-ZÔ.

Mas é claro que eu não decidi romper com o hiato da coluna apenas para falar duas ou três obviedades. Parafraseando a esquerda lacradora, “se não for pra dar closy eu nem abro a boca”: o melhor ainda está por vir! Sabe o que que é? Eu acho que a vitória do Bolsonaro é a oportunidade perfeita pra reerguer o projeto de poder da esquerda revolucionária – seja a revolução gramsciana (conquistando o poder pelas bases, ocupando a institucionalidade do Estado, hackeando o sistema), seja a revolução armada, que sequer precisará se organizar completamente na ilegalidade, já que pelo menos o porte de armas estará liberado. Eu acredito (embora torça pelo contrário) que a gestão do Bozo produzirá os mártires necessários pra justificar o acirramento da resposta à esquerda.

A reflexão que gostaria de trazer é: o que nós, brasileiros e brasileiras, ganhamos com isso? Não digo simbolicamente, já que a conquista do poder pela esquerda perpassa a subversão de vários simbolismos. Digo concretamente. Eu não vejo a esquerda – lembrando só que me considero parte dela – tenha ao longo dos anos construído um projeto de sociedade inclusivo para todas as clivagens sociais. Eu vejo a esquerda fazendo muita questão de ter os argumentos mais arrojados sempre, mas pouquíssimas soluções concretas, que melhorem a qualidade de vida da população negra, LGBTQI, das mulheres e, muito menos, para a população periférica. Não existe um projeto revolucionário pronto, só existe a (pouca) vontade e a oportunidade.

A favela não compra discurso utópico, não gosta de conquista simbólica apenas. Boa parte da favela tem raiva de conquista simbólica contra o sistema. As mães da favela só poderão entender o discurso feminista quando ele for menos problematização na internet e mais ação – quando a produção desse discurso não custar a exploração do trabalho doméstico das mães das feministas. Quando as mulheres “estudadas” se empenharem em usar o pensamento crítico contra o sistema para procurarem usar a Maria da Penha de forma mais estratégica, de forma a evitar o feminicídio da vizinha quando possível.

A luta precisa se preocupar menos com precisão conceitual e mais com resultado. Eu quero que se dane quem me vem problematizar quando chamamos o abandono paterno de aborto. Não, abandono paterno não é aborto, é pior que aborto. Mas na favela – e, desculpem, mas o Brasil não é a universidade, o brasil é uma favela – dizia eu, na favela a gente realmente consegue convencer as pessoas quanto ao direito ao aborto quando o justificamos a partir da defesa de que ele é justo já que “o aborto masculino é legal”. Seria lindo poder justificar como uma questão de “cidadania” e “igualdade de direitos”, mas, com a PEC do teto de gastos, deve demorar uns 50 anos pra que metade das mulheres tenham acesso à educação formal que lhes permitirá entender os termos corretos. E é hoje que mulheres estão morrendo por conta do aborto ilegal. Entendem o que eu tô falando? Tô falando que precisão conceitual sem resultado é Marcelo Freixo tendo votos na zona sul (desculpa Freixo).

Em meados de 2015 eu já falava pra minha mãe, com bastante certeza, que o impeachment ia acontecer, e eu estava surtando com isso. Isso não era certo nem pros meus colegas da ciência política, nem pra galera do lobby que conheço. Eu nem terminei minha graduação ainda, nem sou profeta cartomante e essas coisas, mas, desde o início da minha graduação, criei o hábito de submeter meu aprendizado ao teste final das ruas. Pelas conversas nas ruas já dava pra saber que as instituições políticas arranjariam qualquer desculpa pra proceder com o impeachment. No dia do segundo turno dessas eleições minha mãe me lembrou que, dois anos atrás, eu já tava falando que o Bolsonaro ia ganhar e ela não me dava moral, mas hoje isso estava acontecendo. Foi o reconhecimento mais foda que tive na minha vida de cientista política (que oficialmente não sou mas já me considero pakas).

Me lembrei das alterações que fiz em minha vida pra me preparar pro que estaria por vir. Fiz psicoterapia pra aprender a me doer menos pelo meu objeto de estudo (um luxo de oportunidade), pratiquei artes marciais (valeu, Projeto Campeão) e entendi que, sem arte ,eu, particularmente, não sobreviveria, e voltei a produzir. Também me afastei da visibilidade que o movimento estudantil me proporcionava – porque me tornaria um alvo fácil pra repressão.

E o mais importante: procurei perder a prepotência de me achar superior a quem votaria no Bolsonaro, e procurei conversar com essas pessoas de igual pra igual, porque eu sabia que o bagulho ia ficar louco e pra mim, pior do que não ter a razão, seria não ter minha morte chorada pelos meus vizinhos e pessoas próximas graças à minha chatice. Acho que hoje eu conquistei isso. Acho que depois de tratá-los com respeito eles podem até discordar de quem eu votei no segundo turno, mas minha vida é valiosa o suficiente pra que eles chorem minha morte caso esse regime provoque isso. Acho que hoje, até, alguns temem isso por mim, se solidarizaram, e isso é mais importante que qualquer outro reconhecimento na vida. Mesmo.

Eu sugiro que geral faça o mesmo. Não tá na hora da quebrada se dividir não. Porque sua vida corre risco real, seja você negro, negra, LGBTQI, mulher, enfim. Os vulneráveis estão ainda mais vulneráveis, a favela inteira tá na mira. Você precisa que quem está próximo de você seja por você. Tá na hora da gente ser solidário. Compartilhar as ervas medicinais do quintal mesmo, já que o SUS tá desmantelado. Compartilhar o conhecimento, a técnica do conserto do chuveiro elétrico. Compartilhar o alimento que tá quase estragando na geladeira. Pra que o amor vença o ódio, sabe?

Esses dias, estava lendo um texto do Clóvis Moura, para uma matéria, onde ele afirmava que onde quer que tenha havido escravidão no Brasil, houve também quilombo. Isso me dá muita fé. Porque, apesar de termos um país escravocrata, ruralista, racista, genocida e o caralho, ainda existem quilombos por aí, e onde existe quilombo também existe capoeira, existem raizeiros, existe a cultura viva, fé, e pessoas especializadas em resistir apesar do Estado. Acho que é o que precisamos aprender. Voltar às resistências ancestrais, seja lá de qual ancestralidade (crítica)  estejamos falando. Aquela que nossa mãe e nossa avó tem pra passar pra gente, porque, se a esquerda não conseguiu inventar a resistência, não dá mais pra ficar esperando.

Eu tenho muita fé na oportunidade que a esquerda tem de fazer a autocrítica necessária pra voltar ao poder na era da pós-verdade. Mas, como diria a Bíblia, a fé é a certeza das coisas que não se veem. Seria cômico se não fosse trágico. A favela precisa sobreviver com ou sem autocrítica de esquerda. É nóis por nóis. Estou sendo meio utópica, mas é isso. Só sobrevive quem acredita em tempos melhores. Certa vez, perguntaram pra Dilma como ela aguentou a tortura, e ela respondeu que falava para si mesma que só precisava aguentar mais cinco minutos. Passados os cinco minutos, ela estabelecia a meta de aguentar mais cinco, e assim por diante.

Passei um semestre fora da UnB pra me lembrar o que é ser favela, porque eu realmente tinha me esquecido depois de tantas horas enfurnada na universidade. Lembrei que ser favela não é ser de esquerda nem de direita, ser favela é ir à luta todo dia. Então é isso. Pode chorar mas sem perder o timing. Luto tem que ser verbo. Vamo que vamo, temos muito o que sobreviver, temos que cuidar dos nossos e das nossas.

E, assim como ela voltou pra Dilma, a democracia sempre volta. É cíclico o processo. Até o capitalismo precisa da democracia e, seja pra reformulá-la, desconstruí-la ou seja lá o que for, a gente precisa estar viva: mente, corpo e alma. E não vai ser fácil. Tem que ser estratégico, tem que ser sagaz. Não é primavera, não é verão: É inverno.

 

*Ana Luisa é sansebastianense, artista de rua e está tentando se formar em Ciência Política antes que a UnB seja privatizada pelo novo governo. Fé no Pai!

 

 

Sobre devana babu

devana babu
devana babu é músico, compositor, poeta e etc. estuda jornalismo na UnB, trabalha como repórter estagiário na revista traços e edita o site S2 News. odeia maiúsculas, mas usa, quando é preciso.