quinta-feira , julho 18 2019
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Crônica: O atentado ao carteiro – por Fábio Sena

Eram dez da manhã de um daqueles dias de sol a meio metro quando o carteiro irrequieto gritou-me à porta, a plenos pulmões, grito de pressa, de decompor moral. Correspondência! Apressava-me. Apressei-me. Saltei como gato da cama, nervos arruinados, tropecei em móveis, brinquedos e controles remotos, território longínquo este do quarto à porta, meti os dois olhos curiosos na persiana de madeira maciça e o alcancei, amarelo e azul, lado de fora, sustendo caixas e envelopes, o costumeiro ar de impaciência que me angustiou, e que o tornava mais austero que das outras vezes, embora o grito, o arroubo, de todo modo, em tudo se assemelhassem. Era o ele de sempre. Já vou. E fui, vestido pela metade, fingi compostura e assinei um papel repleto de pequeníssimas letras e o nome do destinatário. Eu mesmo. Arranquei-me dali e em instantes ostentava o tão aguardado objeto. Guardei-o, cheio de solenidades. Cumpriria, como de praxe, todos os rituais até oferecer-me aos tímpanos o vinil, obra finíssima de Naná Vasconcelos – Saudade. Banhar-me-ia ao som de um jazz qualquer na vitrola, escolhi Windflower, de Herb Ellis e Remo Palmier, e acrescentaria ainda ao ambiente o aroma de uns incensos que Fernanda, a bruxa, me arrumara de uma de suas viagens esotéricas a Trigueirinho, mais uma ruma de livrinhos que falavam de extraterrestres e cura pelas mãos, além de umas teorias extravagantes de queimar etapas cármicas e coisas do gênero, que ela insistia que eu lesse.

Vi-me lépido no espelho, muito mais jovial que nas dezenas de vezes anteriores, quando as olheiras sombrias praticamente camuflavam-me o rosto, olhei-me nos olhos, sabia-me remoçado após aqueles primeiros meses de conversão à Doutrina Espírita e todo o acervo de alteração do cotidiano que a espiritualidade legara. E, no entanto, um despautério, num átimo de segundo, em movimento involuntário, vesti duas ou três peças de roupas, sob o efeito nocivo da ressaca do sono tão toscamente interrompido, saí à rua e avistei-o, azul e amarelo, outro lado da rua, dando socos em portas e gritando à vizinhança seu alarido esganiçado sob o sol que escaldava o córtex. Correspondência! Era um grito ácido. Correspondência! Um berro escandaloso. Correspondência! Alcancei-o em segundos, disse-lhe os diabos, argumentei com dedo em riste, de sua ignorância ancestral falei misérias, da intolerância e da parca educação familiar, e disse-lhe do histórico de torpezas e da maledicência da vizinhança a seu respeito, do vocabulário chulo com os quais se nutriam para narrar seus acessos de raiva, seus urros e berros. O leão azul e amarelo, de um segundo para outro, transformara-se num gatinho pávido, pois que, do nada e de repente, um pequeno grupo de vizinhos, adivinhões, cercavam-no, ruidosos, bradando impropérios de elevado calibre pornográfico, hostilidades infames, palavreado devasso que amedrontava mesmo a mim, agora mero coadjuvante, indefeso e já em vias de arrependimento, agente que fui, embora involuntário, de um já quase previsível linchamento.

Palavras choviam como estanho sobre a cabeça do carteiro, silenciado, mortificado, inerte, espasmado. Mais vizinhos, de todo quarteirão, mulheres em maior número, ruidosas e bem mais dispostas ao assassínio, lembravam-no das sucessivas grosserias, xingavam-lhe a mãe, de puta, de rapariga, e avançavam sobre as correspondências, derrubavam os pacotes, agora já atropelavam o pobre, mãos céleres moviam-se no ar, centenas de dedos, em riste, apontavam-no as terríveis deficiências, acossavam-no à parede sem reboco da casa de Almerindo, cuja esposa, uma negra de dois metros, aliara-se às demais para torturarem-no os tímpanos e ameaçá-lo de ataques. Vá gritar no brega com suas putas. Num tenho medo de macho, não. Te arranco os dentes, seu ignorante. Tá pensando que você é dois? Vá pescar pra acabar seu estresse. Um marmanjo desse e não tem educação. O pobre, abatido, balbuciava sons inaudíveis e buscava nas distâncias um socorro, um alento, uma voz em seu favor, um aceno de paz.

E foi então que me vieram à mente os ensinamentos sobre caridade, perdão, tolerância, piedade, beneficência, tão repetidamente enfatizados na evangelização; já me era quase possível enxergar espíritos ao meu lado, inquietos ante minha inércia pecaminosa, reivindicando-me um movimento qualquer contra a turba, a barbárie e o desamor. Enquanto o carteiro era liquidado, minúscula formiga em meio aos cada vez mais elefânticos e obscenos conteúdos, vociferados ao pé do ouvido, eu temia pela minha própria vida, pela minha pele assim que interviesse em favor do infeliz, em desfavor de mim, portanto. Senti, pelo impiedoso do olhar, funesto e cortante, que Dona Maria já me sabia comparsa do carteiro, aliado disposto a salvá-lo das aberrações que, havia meia hora, o afligiam. Vozes dentro de mim exigiam ação, pois que o estrago, em última instância, seria fruto direto daquele primeiro movimento involuntário, do desabafo argumentado aos gritos, embora sem impropérios, sabia-me responsável pelo tumulto, pelos xingamentos, e as circunstâncias impunham-me um gesto de quase santidade, mas não encontrava voz, o coração saia-me pela boca, eu, agora um cardíaco, sem oxigênio no sangue, sem sangue nas veias, sem veias no corpo, e fundador de uma tragédia, compositor de uma desgraça, enquanto mais vozes uniam-se ao coreto, revezando-se, alternando dedos e palavrões e grunhidos e xingamentos.

Chegara a hora de uma intervenção, que as forças superiores me solicitavam, mais que isso, me impunham como dever moral, como medida reparadora contra toda a humilhação e enxovalho, que se agravava minuto a minuto; o medo inato, a covardia congênita compeliam-me à distância, temia sinceramente pelo que sucederia naquele segundo após pronunciar o necessário basta. E fi-lo, o gesto insano, sem pensar, arremetendo, interpondo-me entre a formiga e a turba ensandecida, e minha voz iluminou-se em defesa do reles, ali, miseravelmente ameaçado, ultrajado, desacatado desde as mesozoicas gerações, e ergui as mãos e propus silêncio e compostura. Qual não foi minha surpresa ao contemplar, estupefato, a paralisia que a todos acometeu, o olhar basbaque da cooperativa do mal, os gestos amainados das mulheres, todos, eles e elas, à espera da palavra santa, que a mim me cabia, eu, atônito, agonizando por dentro, à cata de um conteúdo qualquer que mantivesse aquela massa inofensiva, inerte, e então derramaram sobre mim, Oxalá é bem provável, embora homeopaticamente, gotas de calmaria e coragem: aleguei a flagrante desvantagem do carteiro-camundongo frente àquele magote de ratos criados, roedores temíveis, e desatei a minar a coragem coletiva convidando a reflexão individual, de Ana Lúcia, de Jane, de Solange, as mais furiosas, generais do escárnio, e avancei para a moral dos machos, cuidando que cada palavra gotejasse mel em seus ouvidos, convenci-os, um a um, a afastarem-se do coitado, que este havia compreendido os males que a tantos causara e que, certamente, jamais voltaria a empreender tamanhas e cotidianas grosserias, e foram-se alguns minutos até restarem poucos, os menos raivosos, no local da desova.

As últimas palavras de desafeto foram derramadas no asfalto e abandonaram o campo de batalha, surpresa das surpresas, alegaram, homens e mulheres, eu soube mais tarde, que em respeito a mim, logo a quem, a mim, um estranho que há trinta anos entra e sai de casa devotando à vizinhança monossilábicos boas-noites, inaudíveis e casmurros bons-dias, embora delicados, acrescente-se. Decorridos poucos minutos, éramos apenas nós dois, eu e o carteiro, em silêncio, ele assustadíssimo, irrequieto, olhos lassos, trêmulo, nem um parentesco longínquo com aquele leão que derrubava portas aos brados de correspondência! Estendi-lhe a mão, pedido de perdão?, aconselhei-o a suspender as entregas, catei sua bagagem, espalhada ao chão, e insinuei partir. Ele levantou os olhos, fixou-me por segundos, havia raiva, rancor dos fortes, ajustou a mochila ao corpo, virou-se, mexeu-se, assenhorou-se da solidão do lugar, deu três quatro passos lentos, sem firmeza, em desamparo, sorveu oxigênio e, num gesto final, recobrado, murmurou-me um gélido “eu nunca mais piso os pés nesta rua em minha vida”.

 

Fábio Sena

Sobre Paulo Dagomeh

Paulo Dagomeh
Poeta, compositor e ativista cultural, fundou, com amigos, o grupo Radicais Livres e o Movimento Supernova. É membro do Colegiado Livro e Leitura.