segunda-feira , maio 20 2019
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CRÔNICA: Cuidado com a Polícia – por devana babu

Ouça enquanto lê:

 

João Roto era um punk esfarrapado que morava na vila nova. Consumia seus dias de juventude entre idas e vindas pelas imediações do seu bairro e do bosque, que apesar das rivalidades territoriais era praticamente o mesmo bairro, e ademais a convivência entre os civis era extremamente amigável.
No meio dos dois barros havia o Parque Ecológico do bosque, mais conhecido pela marginália local como Matinha.
Sendo um local agradável, reservado e bem no meio do caminho, o Roto sempre se reunia ali com seus amigos pra tocar violão e consumir entorpecentes, que embora fossem ilegais faziam muito bem para a sua gastrite.

Um belo dia, num arroubo de coragem e demonstração de força da sua militância anarco-punk, Roto sacou de um Spray que comprou na Papelaria Colibri e foi pichar num muro dali:

“cuidado com a pulícia”

Mal terminou de grafar o “a”, com os dedos ainda úmidos de tinta, virou um camburão que fazia sua ronda habitualmente ali para roubar os flagrantes dos adolescentes para uso próprio.

– Que porra é essa? – gritaram os policiais já descendo da viatura, com aquela marra habitual.

– É uma música, senhor, disse o Roto, sem demonstrar o nervosismo.

– Ah é? Mão na parede, vagabundo!

– Mas eu não fiz nada!

– Além de pixar a propriedade pública, você está difamando uma corporação respeitosa da nossa sociedade.
Disfarçando o riso diante do cinismo dos representantes daquela “corporação respeitosa”, o roto retrucou, ainda com calma:

– Em primeiro lugar, senhor, isso não é pixação, é grafite. Estamos revitalizando as paredes deste local de lazer há muito abandonado pelo poder público. E em segundo lugar, o texto trata-se de uma homenagem a essa respeitosa corporação. Não entendo por quê o senhor vê uma difamação aqui.

– Tá de zoa, é, cidadão? Você escreve “Cuidado com a polícia” e diz que é uma homenagem? A gente é bandido, por acaso, pra precisar ter cuidado com a gente? Nós estamos aqui para servir e proteger.

– Por isso mesmo senhor. Vocês estão aqui para cuidar da gente, e por isso eu quis retribuir com essa mensagem de carinho: Se a polícia tem tanto cuidado assim com a gente, então nós também temos que ter cuidado com a polícia, ajudá-los no que for preciso e tratá-los bem. Inclusive gostaria de oferecer um café para os senhores qualquer dia desse. Minha casa é bem ali.

Os policiais se refizeram da necessidade de pensar no assunto retomaram a rispidez típica:

– Ali? Tá de zoa, cidadão? Ali é a casa do manda-chuva local, o deputado local eleito pelo povo.

– Mas eu também moro ali. Ele é meu pai.

– Sério?

– Claro, não quer ir lá tomar um café?

Refletindo um instante, o líder do quarteto fardado respondeu apenas:

– Fica pra outro dia. Desculpe pelo mal entendido. Nós somos fãs de arte de rua e ficamos imensamente agradecidos pela mensagem de conscientização que vocês estão espalhando nos muros. Precisamos de mais atitudes assim. Uma boa tarde e até a próxima. Mande lembranças ao deputado, e diga aos seus amigos pra não ficarem dando bobeira com esses baseados.

– Pode deixar, senhor. Passar bem.

Quando os policiais foram embora, rindo das próprias mentiras, sob as gargalhadas de seus colegas, Roto continuou sua missão sem ter abalado um milímetro sequer as suas convicções:

“cuidado com a pulícia:
ela espanca e assassina – C.F.”

Sobre devana babu

devana babu
devana babu é músico, compositor, poeta e etc. estuda jornalismo na UnB, trabalha como repórter estagiário na revista traços e edita o site S2 News. odeia maiúsculas, mas usa, quando é preciso.