segunda-feira , maio 20 2019
Casa / Brasil / Mundo / Bird Box – O que os olhos não vêem o coração sente? Por Nilmar Paulo

Bird Box – O que os olhos não vêem o coração sente? Por Nilmar Paulo

Essa noite passada eu assisti ao filme “Bird Box”. Confesso que não achei tão grandioso quanto o povo tem relatado. E muitos não entenderam o filme. Mas isso é normal, já que se trata de um filme que, além de ter propositadamente um elemento no roteiro sem ser esclarecido, ainda exige uma boa sensibilidade daquele que o assiste. Mas vamos lá desvendar um pouco desse filme.

1 – O filme é baseado em um livro de mesmo nome, chamado Bird Box que, em português, podemos traduzir para “pássaros na caixa”. Isso já é uma entrega. A protagonista, Malorie, vive como pássaro, fechada numa gravidez da qual ela faz pouco caso. Isso pelo fato dela não ter os mesmos sentimentos que as demais pessoas que vivem a vida mais ampla, sem ser num mundo fechado. Ou seja. Como pássaro numa caixa.

2 – A Malorie não tem muitos sentimentos justamente por não viver verdadeiramente a vida. Já que ela vive no mundinho dela, fechado, com suas pinturas em telas. Que inclusive, no início do filme ela é questionada pela própria irmã pelo conteúdo dessas pinturas, algo que mostra que falta sentimentos nela. E essa sequência mostra que ela está insatisfeita com a gestação e que falta sentimentos inclusive para amar um filho que está para nascer. Tanto que ela não consegue sequer dar nome para as crianças.

3 – Os pássaros que a Malorie carrega na gaiola e depois na caixa, me parece uma metáfora com a vida da protagonista, que vive como se fosse um pássaro em uma caixa. E assim está criando os filhos, presos, sem conhecer o mundo, sem voar. No decorrer do filme, ela sempre carrega os pássaros. Primeiro na gaiola, depois na caixa.

Na sequência final do filme, quando Malorie chega com as crianças na escola de cegos, percebe-se que é como um paraíso, tudo o que as crianças não conheciam, com várias outras crianças brincando, um lar de verdade. E seguindo a metáfora dos pássaros presos, é justamente nesse instante do filme que as crianças e Malorie são “libertas” e que os pássaros também são libertos da caixa. E a mensagem principal talvez seja a de que melhor que ver é poder sentir. Lembrando ainda que o que chamo de paraíso do filme é justamente uma escola de cegos, onde as pessoas não vêem e, portanto, não sofrem. Outro ponto que nos mostra isso é o quanto aumentou o sentimento da Malorie pelas crianças no período que ela estava sempre vendada e não via as crianças. Mas esse sentir, sem vê-las, com o tempo fez com que ela fosse gostando mais delas, tanto que no fim até deu nome a cada uma delas.

4 – sobre o mistério que as pessoas olham e querem suicidar-se, isso sim, não foi algo explícito no filme. Mas também é só uma composição para a mensagem principal, que é mais ligada a maternidade e ao fator de sentir.

Sobre Paulo Dagomeh

Paulo Dagomeh
Poeta, compositor e ativista cultural, fundou, com amigos, o grupo Radicais Livres e o Movimento Supernova. É membro do Colegiado Livro e Leitura.